Caminhada aventura de Talim a Lisboa!

A costa de Vidzeme

Tinhamos a costa inteira da Letónia à nossa frente e o que fizemos? Escolhemos a Via Baltica para a nossa caminhada. Bem, acabou por ser não tão ruim assim, já que havia uma ciclovia paralela à estrada, a passar por aldeias tranquilas. Olhámos em nosso redor para descobrir as diferenças com a Estónia. As casas predominantemente de pedra em vez de madeira, bandeiras encarnado-branco-encarnadas no lugar das azul-preto-brancas, uma língua muito diferente (muitos acentos em vez de vogais duplas), e as pessoas ficam muito surpresas quando estranhos as cumprimentam.
No hotel em Ainaži, tínhamos recebido um mapa gratuito da região com todas informações de que precisávamos: rotas de bicicleta, atrações e todos os alojamentos ao longo do nosso caminho, com número de telefone e endereço de internet. Isto era muito melhor do que as informações gerais contidas no atlas de estradas e em combinação com o GPS ajudou-nos a organizar a nossa viagem. Estava na hora de um dia de descanso, que nós queríamos passar na cidade portuária de Salacgrīva, portanto tínhamos reservado um alojamento para duas noites, baseado nas informações do mapa regional. É sempre um pouco arriscado quando escolhemos um lugar para passar o dia de descanso (lembram-se do “Campo de flores”?), porque ele tem de ser confortável o suficiente para ficarmos à vontade para relaxar, ler e escrever; tem de ter bom WiFi para que possamos conectar-nos com o mundo e de preferência ter uma cozinha boa e ficar perto de uma loja e/ou um restaurante.

O lugar que encontrámos em Salacgrīva foi perfeito para um dia de descanso. Éramos os únicos hóspedes numa casa de campo lindamente renovada no meio de um jardim enorme, com quartos aconchegantes e uma cozinha boa. Até havia menta fresquinha da horta! Mais tarde neste dia, Janis, o proprietário, contou-nos que esta era a casa da sua avó que ele tinha renovado e transformado em uma pousada. No inverno, ele vive e trabalha em Rīga, mas da primavera até o outono ele volta ao lugar da sua infância e aproveita a natureza, o mar e a companhia dos seus hóspedes.
Usámos o dia para descobrir um pouco da cidade e caminhámos ao longo do rio Salaca, onde pescadores pescam lampreias de acordo com o mesmo método de séculos atrás, e para o porto, onde pilhas enormes de madeira estavam à espera de serem transportadas para o mundo. Comemos um almoço letão num restaurante buffet (se vocês ficaram curiosos, eles normalmente servem um pedaço de carne ou frango, batatas e salada de couve; muitas vezes há uma sopa de beterraba fria ou quente como entrada), fizemos compras para o jantar e pequeno-almoço e voltámos à pousada. No fim da tarde, o Janis convidou-nos a sentar junto à fogueira com ele, onde dividimos algumas cervejas e conversámos muito sobre a Letónia e o mundo.

No dia 34 voltámos a caminhar e deixámos Salacgrīva para chegar a um parque de campismo mais a Sul da costa. O Janis tinha assegurado-nos que a praia era boa para caminhar a distância toda até Rīga. Este não foi sempre o caso; às vezes a areia estava mole demais para caminhar durante muito tempo ou havia muitas pedras, tornando a caminhada desconfortável, ou um rio cortava o caminho – mas era verdade que nós finalmente conseguimos seguir a costa quase o tempo todo.
Passámos a noite num parque de campismo enorme e muito bem organizado. Cada lugar para pôr a tenda era numerado e tinha sua própria mesa e lugar para fogueira, e as casas de banho e chuveiros estavam em ótimas condições. E não estávamos sozinhos; alguns ciclistas, muitos deles alemães, tinham escolhido este lugar na sua rota ao longo da costa báltica. Tivemos a oportunidade de conversar com uma mulher que acabara de vir de onde nós queríamos ir e trocámos informações sobre a rota. Foi engraçado para nós que o destino dela para o próximo dia era Pärnu; nós levámos uma semana para vir de lá a pé!

O dia 35 acabou por ser um dia longo de caminhada. De alguma forma, as distâncias que percorremos na realidade eram maiores que as indicadas no mapa. Isto foi talvez devido ao facto que tivemos de mudar da rota mais direta pela praia para caminhos na floresta, depois que a Moiken ficou entalada até os joelhos na areia molhada ao tentar atravessar um pequeno rio na praia. Isto foi pena, porque as vistas da praia eram tão bonitas. Nós tínhamos passado por falésias vermelhas no nosso caminho, sem falar nas longas praias de areia e nas ondas a quebrar suavemente perto dos nossos pés. Um pouco mais tarde fizemos outra tentativa de caminhar na praia, mas a praia de areia boa de caminhar tinha mudado para uma praia de pedras e nós logo cansamo-nos de saltitar de uma pedra para outra. Por isso, ficámos aliviados quando avistámos uma escada a levar para a estrada. Quando chegámos em cima, havia uma placa a indicar que a estrada estava interrompida neste ponto e que pedestres e ciclistas tinham de descer para a praia e caminhar uns 300 m até subir novamente para a estrada. Achámos isto muito estranho, pois esta estrada era parte de uma ciclovia oficial. O desvio pela praia era pior que aquela parte da qual tínhamos tentado escapar e definitivamente era mais longo que 300 m. Foi difícil imaginar como um ciclista de longa distância conseguiria passar este trecho. Quando subimos as escadas no outro lado, descobrimos a razão pela interrupção misteriosa da estrada: Alguns cidadãos simpáticos tinham o seu terreno ali e aparentemente não queriam ser perturbados por pedestres ou ciclistas a passar.
Não tínhamos reservado um lugar para a noite, mas o Janis recommendara-nos um hotel nas redondezas, que de facto era bem bonito, com preços razoáveis e um restaurante muito bom. Na verdade, tínhamos trazido o nosso jantar, mas pudemos tomar uma cerveja no final do dia e começar o dia seguinte com um rico pequeno-almoço.

No dia 36 fizemos muita caminhada na praia e só voltámos para a estrada quando um rio atravessou a praia (e a Moiken não queria molhar os pés outra vez). Foi um dia lindo e ensolarado e tínhamos chegado a uma das estâncias balneares da Letónia, Saulkrasti. A sua praia de areia tem 17 km de comprimento e é cortada por quatro rios, e nós tivemos o prazer de caminhar uma parte dela de pés descalços e banhados no mar refrescante. Chegámos ao alojamento desta noite relativamente cedo, portanto era claro o que faríamos logo: Deixar as nossas mochilas no quarto, vestir a roupa de praia e aproveitar uma tarde preguiçosa no sol. Foi o que pensámos. Foi uma luta entrar no hotel – com o portão trancado, tivemos de ligar para um número com uma senhora russa mal-humorada do outro lado, que obviamente não falava outra língua senão russo (provavelmente nem falava letão, embora isto não tivesse ajudado), e finalmente conseguimos convencê-la de abrir o portão para a sua fortaleza, isto é hotel de praia. Uma vez que colocámos as nossas coisas no quarto, fomos diretamente para a praia, só que o tempo tinha mudado e ficou nublado e frio demais para ficar fora. Voltámos para o hotel, ao qual nós agora conseguimos aceder sem telefonar, trocámos de roupa e partimos para descobrir o centro de Saulkrasti. A senhora mal-humorada ficou um pouco mais simpática, já que agora éramos hóspedes do hotel, e recomendou visitar a feira que estava a abrir na frente do hotel. Nós estávamos mais interessados em sentar num espaço protegido e tomar um café e/ou cerveja, o qual nós encontrámos depois de caminhar 3 km até o centro de Saulkrasti. Havia um café simpático onde comemos muito bolo (Moiken) e um kebab saboroso (José), tomámos café e cerveja – tudo pelo preço de um só kebab em Zurique. Era tardezinha quando voltámos ao hotel, não precisávamos mais jantar depois daquela comilança à tarde, então fomos dormir bastante cedo.

O limite da cidade de Rīga ainda estava a uma distância enorme de 44 km no dia 37. Entretanto, partimos muito cedo naquele dia, cheios de energia e determinados a chegar o mais perto possível da cidade, de modo que no dia seguinte poderíamos já aproveitar a tarde lá. Se foi esta motivação ou o tempo quente e ensolarado naquele dia – com dois intervalos mais longos, um para o almoço e outro para um panache à tarde, percorremos uma distância de 34 km! Tínhamos decidido de mudar a nossa estratégia de alojamento; em vez de reservar antes e tentar chegar no lugar, nós simplesmente começariamos a caminhar e procuraríamos um lugar quando ficássemos cansados. Esta estratégia não funcionou muito bem na Estónia, onde os alojamentos estavam muito espalhados e o tempo não favorecia acampar, mas com as temperaturas mais altas e e temporada de verão a começar na Letónia, deveria dar certo. E deu de certa forma. Começámos a procurar por lugares para pernoitar a partir dos 25 km, mas no final tínhamos caminhado 34 km até uma vila, onde o mapa indicou um alojamento que não existiu. No entanto, havia uma paragem de autocarro, e um senhor simpático explicou-nos em russo que o próximo hotel estava a algumas paragens dali. Ele também pegou aquele autocarro e deu-nos sinal para descer na paragem mais perto do hotel. Foi assim que chegámos ao lendário Emmas Viesnīca (hotel) junto ao porto industrial de Vecmīlgrāvis. Nunca tínhamos visto algo parecido: Uma pequena loja ocupava a área da entrada, na recepção estava um guarda de segurança que só falava russo, os corredores à esquera e direita lembravam-nos de um hospital ou pior e uns homens muito sérios, provavelmente operários do porto, estavam a caminho de suas celas, eh, quartos. Conseguimos convencer o oficioso guarda de segurança de alugar-nos um quarto para a noite e depois de ter copiado cuidadosamente os nomes dos nossos bilhetes de identidade (já estávamos prontos a mostrar o passaporte, em caso ele pedisse) para dois recibos (um para cada ocupante do quarto duplo), ele levou-nos ao nosso quarto e mostrou o chuveiro no corredor – trancado com uma chave separada.

Ao pegar o autocarro para o hotel, tínhamos encurtado a distância para Rīga, mas vocês já nos conhecem, não é assim que trabalhamos. Por isso no dia 38, pegámos o autocarro de volta à paragem da noite anterior e caminhámos os 5 km até Vecmīlgrāvis. O tempo estava agradável e conseguimos apreciar a movimentação no porto do alto de uma ponte enorme, depois caminhámos mais 5 km até o limite da cidade numa ciclovia junto à estrada principal. Viva, chegámos em Rīga!
Não tão rápido, anda tínhamos mais 5 km até o nosso hostel no centro da cidade. Esta parte foi bem interessante. Primeiro, passámos por blocos residenciais no estilo soviético, atrás dos quais começou um trilho pequeno para uma área verde. Pensávamos que isto seria um pequeno pedaço antes de ter mais blocos residenciais, mas não – acabámos de entrar no Mežaparks, um entre muitos parques em Rīga, este a cobrir a incrível área de 530 ha. Depois do parque, estávamos no meio de uma área enorme de cemitérios e depois disso, era só seguir a linha do elétrico em linha reta por mais 2 km para chegar ao nosso hostel.
O que vimos e fizemos na capital letã? Aguardem o próximo artigo para descobrir!

a carregar o mapa - aguarde por favor...

Helmi Hotel: 57.864318, 24.359112
Roki: 57.747251, 24.360517
Veczemju klintis: 57.579931, 24.366969
Lauču akmens: 57.366980, 24.403472
VinDen: 57.247462, 24.403721
Emmas Viesnica Hotel: 57.031896, 24.116600
Funky Hostel: 56.952888, 24.124531
Trīsciems: 57.052577, 24.137456

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Estatisticas

km

12 países atravessados
319 dias de caminhada
89 dias de descanso

Actualizado em 11/06/2016 – CHEGAMOS A LISBOA!